19/02/2026

Choque elétrico fatal em piscina de pousada acende alerta para segurança técnica e normas no setor de piscinas


Compartilhe:

Foto: G1

A morte de uma mãe e seu filho em uma piscina de cobertura em Maragogi (AL), no início de 2026, trouxe à tona um tema sensível e ainda pouco compreendido por muitos gestores, operadores e proprietários de piscinas: a interação entre instalações elétricas e ambientes aquáticos. Perícia oficial concluiu que um “varal de luzes” instalado próximo à piscina energizou estruturas metálicas, gerando um choque elétrico fatal que vitimou Luciana Klein Helfstein, de 39 anos, e o filho dela, Arthur, de 11 anos. Investigadores e peritos destacam que o acidente poderia ser evitado com o cumprimento rigoroso das normas técnicas de segurança, especialmente a ABNT NBR 5410, que trata de instalações elétricas de baixa tensão.

Perícia identifica falha técnica crítica

Foto: Uol

O Instituto de Criminalística de Maceió, responsável pela investigação técnica, identificou que o varal de luzes colocado próximo à piscina apresentava um conector em contato com a estrutura metálica do guarda-corpo, o que levou à energização acidental de toda a estrutura. Medições no local apontaram potencial de cerca de 220 V na superfície metálica, um valor suficiente para causar choque elétrico grave ou fatal, especialmente em um ambiente molhado.

Os peritos também classificaram a área da piscina como de alta criticidade elétrica, devido à constante presença de água, ‘’um condutor’’ e à proximidade de componentes metálicos que podem acumular tensão elétrica perigosa quando instalações fora de norma estão presentes.

Normas técnicas que foram desrespeitadas

Foto: G1/ Almaré

A instalação descumpriu diversas prescrições da ABNT NBR 5410, norma brasileira que rege as instalações elétricas de baixa tensão e que contém requisitos expressos sobre a interação de sistemas elétricos com ambientes úmidos e sujeitos a riscos:

  • A NBR 5410 exige proteções contra contato elétrico acidental em áreas molhadas ou com probabilidade de contato com usuários;

  • Componentes metálicos próximos a água (como guarda-corpos, grades e estruturas) devem estar equipotencialmente aterrados e isolados de potenciais de choque;

* A expressão "equipotencializar" dentro do contexto de "exponencialmente aterrados" refere-se à prática técnica de conectar todas as partes metálicas de uma instalação elétrica a um único ponto de aterramento (referência zero) para garantir que todas tenham exatamente o mesmo potencial elétrico.

  • Dispositivos de proteção contra fuga de corrente (interruptores diferenciais residuais — DR) devem ser obrigatórios em circuitos que sirvam piscinas ou ambientes de alto risco;

  • Instalações temporárias ou decorativas, como luzes externas, devem obedecer a critérios de isolamento, especificação adequada para áreas externas, e não serem posicionadas de forma a criar um risco potencial de contato ou acúmulo de tensão em superfícies metálicas.

O laudo pericial ressaltou que a negligência, imprudência ou imperícia na instalação como a ausência de aterramento correto e a proximidade entre componentes energizados e a piscina transformaram uma área de lazer em situação de risco oculto para os usuários.

Pontos de perigo identificados no local

A perícia técnica e órgãos de segurança apontam várias causas que elevam o risco nesse tipo de ambiente:

1. Estruturas metálicas energizadas
Componentes próximos à piscina que entraram em contato com corrente elétrica podem transmitir choque ao usuário, especialmente com a mão ou pé molhado.

2. Ambiente constantemente úmido
A água é condutora, e a presença contínua de umidade agrava a probabilidade de choques, mesmo em tensões relativamente baixas.

3. Ausência de proteção elétrica adequada
A falta de dispositivos diferenciais (DR), aterramento e proteção contra fuga de corrente aumenta o risco de choque em caso de falha.

4. Instalações temporárias mal projetadas
Equipamentos decorativos ou temporários, como luzes, que não foram projetados ou instalados para áreas molhadas oferecem risco significativo.

5. Falta de inspeção e manutenção profissional
A ausência de verificação técnica por profissional habilitado e a manutenção preventiva deixam falhas ocultas persistirem.

Como as boas práticas e normas ajudam a prevenir tragédias

Este caso evidencia a importância de seguir práticas que, embora muitas vezes negligenciadas, são consagradas em normas técnicas:

  •  Aterramento equipotencial obrigatório

Em áreas molhadas ou com presença de usuários em contato com água, todos os componentes metálicos devem estar equipotencialmente ligados ao terra técnico, reduzindo diferenças de potencial que podem causar choque.

  • Uso de dispositivos de proteção diferencial residual (DR)

Esses dispositivos detectam fuga de corrente e podem interromper o circuito antes que o choque atinja um nível fatal.

  • Verificação por profissional habilitado

Engenheiro eletricista ou profissional registrado no CREA deve projetar e inspecionar instalações elétricas em áreas próximas a piscinas ou sistemas aquáticos.

  •  Isolamento adequado em instalações temporárias ou decorativas

Luzes, cabos e conectores precisam ser especificados e instalados de acordo com o ambiente — à prova d’água, com grau de proteção IP compatível e longe da proximidade com água ou superfícies acessíveis.

  •  Revisões periódicas e planos de manutenção preventiva

Inspeções rotineiras ajudam a identificar falhas antes que causem acidentes.

O papel da responsabilidade técnica e da ANAPP

Casos como o de Maragogi reforçam a necessidade de que estabelecimentos com piscinas — sejam hotéis, clubes, pousadas ou condomínios — tenham responsável técnico habilitado, com formação específica e registro profissional, para garantir o cumprimento de normas, acompanhar a manutenção e antecipar riscos.

Além disso, a ANAPP reforça a importância das normas e guias técnicos como instrumentos práticos para a proteção de usuários e profissionais, e destaca a necessidade de capacitação contínua de tratadores, gestores, engenheiros e técnicos que lidam com ambientes aquáticos.

Conclusão

O choque elétrico que vitimou mãe e filho em Maragogi não foi um evento isolado ou inevitável. Foi o resultado de uma combinação de instalação elétrica inadequada, falta de conformidade normativa e ausência de inspeção técnica especializada. Esse acidente tragicamente demonstra que a segurança em piscinas não se limita à água limpa: ela começa na engenharia, passa pela manutenção rigorosa dos sistemas elétricos e termina na consciência de que normas técnicas existem para proteger vidas.

A adoção de práticas profissionais, a observância de normas brasileiras como a ABNT NBR 5410 e outras relacionadas à segurança de piscinas, e a atuação de responsáveis técnicos qualificados são passos essenciais para transformar piscinas em ambientes de lazer seguros e não em riscos ocultos.

 

Fonte:g1.globo.com