04/09/2025

Arquitetura que mergulha no inesperado: o desafio de criar piscinas suspensas e exclusivas!


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Como a engenharia e o design transformaram varandas em verdadeiros oásis particulares, unindo estética, técnica e integração com a paisagem

Exemplo de piscina suspensa

Na arquitetura contemporânea, a inovação acontece quando estética e funcionalidade se encontram para criar algo que parecia impossível. Entre as tendências mais ousadas, um conceito tem chamado atenção: piscinas suspensas integradas à fachada, transformando áreas externas em experiências únicas de lazer, contemplação e design.

Divulgação/ Viw Residence - Ubatuba

Essas criações ultrapassam a função tradicional de refrescar e entreter. Quando projetadas como elementos estruturais e visuais, elas se transformam em peças de arte habitável — quadros vivos na fachada, capazes de dialogar com a paisagem e despertar sensações em quem as vê ou utiliza.

Um exemplo marcante está em um edifício de frente para o mar em Ubatuba, São Paulo, onde 27 piscinas foram incorporadas às varandas. O conjunto cria um desenho que remete aos morros e montanhas da região, tornando a fachada um cartão-postal da cidade. “As piscinas foram concebidas desde o início como parte estrutural do projeto, não como acréscimos”, explica Ivan Ventura, um dos arquitetos diretores do projeto.

Ivan Ventura

Criatividade que nasce da limitação

A ideia surgiu como resposta a um desafio: as regras urbanísticas locais impõem um limite de altura ao empreendimento. Isso inviabilizava o modelo tradicional de piscinas planas, já que o pé-direito somado à altura delas ultrapassaria o permitido — ou obrigaria a reduzir o prédio a apenas três pavimentos, inviabilizando financeiramente.

A solução, segundo Vital, também arquiteto diretor, foi “brincar um pouco com a diagonal, sendo que você tem a piscina, mas em alguns lugares ela é mais profunda e em outros mais rasa”. Essa variação permitiu respeitar a legislação, criar conforto para diferentes perfis de usuários — de crianças a adultos — e, ao mesmo tempo, gerar um efeito visual inédito.

Uma fachada que conversa com o horizonte

Para Ventura, o objetivo era que o conjunto “dialogasse com essa natureza exuberante, não competindo com ela, mas emoldurando-a, sendo que a varanda, com suas piscinas em balanço, foi pensada como um prolongamento do horizonte, como se o mar invadisse o espaço doméstico”.

O desenho não foi deixado ao acaso: a equipe mapeou montanhas e morros de Ubatuba e os traduziu em planos inclinados, criando uma releitura na fachada. A escolha do concreto aparente em tom cinza reforça o estilo de construção brasileiro, e ainda destaca luz e sombra em vez de cores. “O que vai dar a cor ao prédio são as pessoas da fachada”, diz Vital. O conceito é semelhante ao do oceano: uma superfície monocromática onde a vida e o movimento vêm dos elementos que o habitam.

Engenharia de alto risco e precisão milimétrica

Para criar o efeito translúcido nas piscinas, optou-se por painéis de acrílico no lugar do vidro. O material oferece maior transparência e resistência, permitindo que, de fora, se tenha a impressão de que as pessoas estão flutuando sobre a cidade.

Cada painel mede cerca de 8 metros de largura por 3 metros de altura, com espessura próxima a 10 centímetros. O transporte foi uma operação complexa: peças vindas dos Estados Unidos chegaram de barco, foram içadas por guindastes e encaixadas individualmente em estruturas pré-moldadas. A vedação precisava ser perfeita para evitar qualquer vazamento. “Tem que ir peça por peça para colocar numa estrutura que já foi pré-moldada para você encaixá-lo e vedar 100% para que não haja nenhum vazamento da água”, detalha Vital.

O clima litorâneo acrescentou mais desafios. Segundo Ventura, foi preciso “conciliar a complexidade técnica das piscinas suspensas com os rigores do ambiente litorâneo, que exige atenção redobrada com durabilidade e manutenção”. Foram aplicados sistemas específicos de impermeabilização, múltiplas camadas de proteção e ventilação calculada para evitar acúmulo de umidade. Todos os materiais utilizados são compatíveis com a maresia.

Houve até um momento crítico antes da instalação definitiva: as placas estavam apenas apoiadas quando um alerta meteorológico anunciou ventos extremos na região. “O maior desafio foi esse, que a engenharia teve que correr para travar tudo”, lembra Yuri.

Yuri Vital

Beleza que funciona

Outro cuidado foi manter a estética limpa. Equipamentos como bombas, filtros e sistemas de manutenção foram integrados de forma discreta, sem interferir no visual. Para Vital, “o desafio da arquitetura é tentar fazer com que a beleza se torne funcional”.

A filtragem e a circulação da água receberam atenção especial para garantir clareza e higiene, sem comprometer o impacto visual que é o ponto alto do projeto.

A visão do arquiteto

Projetos como esse mostram o papel do arquiteto como mediador entre sonho e execução. “A função do arquiteto é atender o cliente de uma forma bonita, elegante, sem gerar grandes custos, sem gerar grandes desperdícios”, afirma Vital. Ele reforça que, ao pensar uma piscina, é preciso vê-la não apenas como um espaço de lazer, mas como um elemento capaz de melhorar o conforto térmico, o controle de umidade e até a estética de um ambiente.

Para quem deseja criar algo que vá além do básico, Ventura recomenda: primeiro, entender o papel da piscina no cotidiano e no espaço; depois, buscar soluções que expressem essa função — seja com formatos, materiais ou posicionamento — e, desde o início, contar com um arquiteto capaz de transformar essa visão em algo único.

Piscinas suspensas como essas provam que a arquitetura pode ir muito além de paredes e lajes. Elas tornam-se símbolos, experiências e paisagens ao mesmo tempo — um mergulho literal e figurado na inovação.

 

Fonte: Revista ANAPP Edição 182